Fala do deputado estadual do Republicanos em evento com Mauro Mendes viraliza após anúncio de R$ 249,9 milhões em investimentos em Pontes e Lacerda; notas oficiais do governo indicam que o hospital ainda estava em fase de autorização para licitação
Por Diego Feijó de Abreu | Revista Fórum
Um vídeo gravado durante uma agenda oficial do governo de Mato Grosso em Pontes e Lacerda, no oeste do estado, colocou o deputado estadual Valmir Moretto (Republicanos) no centro de uma crise política nesta semana. Na gravação, feita em 17 de março de 2026, Moretto aparece ao lado do governador Mauro Mendes (União Brasil) e diz: “Duas, a Agrimat e uma é a minha”, ao comentar empresas que ganharam licitações em obras anunciadas para a região.
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| Deputado estadual Valmir Moretto (Republicanos-MT) | Reprodução / Youtube ALMT |
A fala ganhou repercussão nas redes sociais porque foi registrada em um evento público do próprio governo estadual, diante de autoridades e com o microfone aberto. O episódio ocorreu no mesmo ato em que a gestão Mauro Mendes anunciou R$ 249,9 milhões em novos investimentos para Pontes e Lacerda, somando ações nas áreas de saúde, infraestrutura, educação, habitação e agricultura familiar.
O caso ganhou dimensão porque a frase foi interpretada como uma referência direta a contratos públicos. No pacote anunciado naquele dia, o governo incluiu a construção do Hospital Estadual do Sudoeste Mato-grossense e obras rodoviárias na MT-473. A partir daí, a declaração do deputado passou a ser associada a uma possível ligação entre agente político e empresa vencedora de licitação estadual.
O que foi anunciado pelo governo de MT
Segundo a nota geral divulgada pela Secretaria de Estado de Saúde, o pacote para Pontes e Lacerda soma R$ 249,9 milhões. Desse total, o governo informou que o principal investimento seria o novo hospital regional, com previsão de R$ 160 milhões em aporte. No mesmo texto, porém, o Estado registra que o projeto da unidade ainda estava em fase final de elaboração e que, só depois disso, seria publicada a licitação para contratar a empresa responsável pela construção.Em outra nota oficial específica sobre o hospital, publicada na mesma data, o governo traz uma previsão diferente de investimento para a unidade: R$ 135 milhões. Nesse segundo comunicado, Mauro Mendes afirma ter assinado a autorização para iniciar a licitação do hospital, e não a contratação já concluída da empresa executora. O texto informa ainda que a unidade terá 175 leitos, sendo 30 de UTI, e área construída de 30.208,61 metros quadrados.
Além do hospital, o governo anunciou a construção de uma ponte de 30 metros na MT-473, com aporte de R$ 2,7 milhões, e o asfaltamento de 40,49 quilômetros da mesma rodovia, dividido em dois trechos que somam R$ 58,8 milhões. Foi nesse contexto de anúncio de obras rodoviárias e de saúde que a fala de Moretto foi registrada.
Fala viralizada recai sobre contratos de obras
O vídeo mostra o deputado em tom de comemoração durante a agenda oficial. Em registros reproduzidos pela imprensa local, Mauro Mendes pergunta sobre o andamento das obras e sobre as empresas vencedoras. É nesse momento que Moretto responde que duas ficaram com a Agrimat e que uma seria “a minha”. A frase passou a circular nacionalmente e elevou a pressão sobre o caso, porque a cena ocorreu em um ato de governo e diante do próprio chefe do Executivo estadual.O ponto central da controvérsia é que o vídeo juntou, em uma mesma repercussão, obras que estavam em estágios diferentes. Pelas notas oficiais do próprio governo, o hospital ainda não aparecia como obra com licitação concluída. Já as intervenções na MT-473 foram anunciadas como parte do pacote de investimentos formalizado na agenda de Pontes e Lacerda. Esse detalhe passou a ser decisivo para a apuração, porque delimita sobre quais contratos a fala de Moretto pode ter recaído.
O que disse Valmir Moretto após a repercussão
Depois que o vídeo viralizou, o deputado afirmou que já não é dono da empresa citada. Segundo Moretto, ele participou do negócio até 2018, quando vendeu sua cota ao irmão ao assumir o mandato parlamentar. Também declarou que se referiu à empresa como “minha” por hábito. Na versão apresentada por ele, a fala não significaria vínculo societário atual, mas apenas uma forma antiga de se referir ao empreendimento com o qual teve relação no passado.Moretto também afirmou que sua comemoração no evento estava ligada à chegada das obras para a região, e não a eventual benefício pessoal. Ainda assim, a explicação não encerrou a controvérsia, porque a frase foi dita justamente no momento em que se discutiam licitações e empresas vencedoras de obras públicas.
Governador minimizou o episódio
No dia seguinte à repercussão, Mauro Mendes minimizou o caso. Segundo relato publicado pela imprensa local, o governador disse que não viu o vídeo completo e afirmou que o governo não fez nada de errado. Mendes declarou ainda que, no momento do anúncio, falava sobre os mais de R$ 200 milhões em obras e que não acompanha licitações nem conhece todas as empresas citadas nos contratos.A fala do governador não encerrou a pressão política porque a gravação foi feita em ato oficial e passou a levantar questionamentos sobre a relação entre mandato parlamentar, empresas privadas e contratações públicas. A vedação constitucional para deputados manterem contratos com pessoa jurídica de direito público está prevista no artigo 54 da Constituição Federal, ponto que passou a ser citado no debate aberto após a viralização do vídeo.
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