Expectativa por delação premiada de Daniel Vorcaro deixa em suspense mundo político; apenas uma fração do material apreendido pela PF foi periciada
Por Andrea Jubé e Tiago Angelo | Valor — De Brasília
Um ano após o anúncio da tentativa de compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB), a expectativa de uma delação premiada do ex-banqueiro Daniel Vorcaro deixa em suspense o mundo político, impacta as sessões do Congresso, expõe o Supremo Tribunal Federal (STF) a uma grave crise e tem potencial para contaminar a eleição presidencial. O caso desencadeou o maior escândalo político e financeiro da República, atingindo políticos influentes, autoridades dos três Poderes e altos funcionários do Banco Central (BC).
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| Foto: Victor Moriyama/Bloomberg |
A investigação da Polícia Federal (PF) revelou a existência de uma “organização criminosa” liderada por Vorcaro, nas palavras do ministro André Mendonça, atual relator do caso no STF. Preso desde 4 de março, o ex-banqueiro é investigado pelos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, obstrução da Justiça e contra o sistema financeiro. Ele mudou de advogado recentemente para articular uma colaboração premiada. Fabiano Zettel, pastor, empresário e cunhado de Vorcaro, também está detido e demonstrou disposição de delatar.
Vorcaro assumiu o controle do Master em 2019, ainda no governo de Jair Bolsonaro, quando o empresário recebeu autorização do Banco Central (BC), depois de três negativas, para comprar o então banco Máxima, depois rebatizado como Master. À época, Roberto Campos Neto estava no primeiro ano da presidência no BC. Nos anos seguintes, o Master teve rápido crescimento e os negócios e relações de Vorcaro no meio empresarial e na política se expandiram, incluindo ex-ministros de Bolsonaro como Ciro Nogueira (PP).
No fim de 2023, já no atual governo e ainda na gestão de Campos Neto, o BC começou a fechar o cerco sobre o Master, mas a decisão final sobre a liquidação extrajudicial da instituição só ocorreria quase dois anos depois, em novembro de 2025. Há quem entenda no mercado que o BC demorou a agir. Procurado, Campos Neto não se manifestou.
A quebra do sigilo dos celulares de Vorcaro, analisados pela PF e pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), revelou diálogos mantidos com sua ex-noiva Martha Graeff, nos quais ele menciona contatos com políticos e autoridades. Em uma das mensagens, o ex-banqueiro diz que esteve em reunião na residência oficial do Senado em 3 de agosto de 2025. Sem citar nominalmente o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), relata que o encontro “foi até meia-noite” e que “terça teremos outra [reunião]”. Um dia antes, ele disse à então namorada que havia se encontrado no aeroporto com “Hugo” — possível referência ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).
“Como presidente da Câmara, eu sempre mantive agenda aberta para ouvir diferentes pessoas, grupos empresariais de diversas atividades econômicas, pois essa é uma das funções do cargo”, disse Motta em nota, acrescentando que seu dever é trabalhar na Casa pela aprovação de propostas de interesse do país. “Sem dúvida estamos em um momento que exige responsabilidade e atenção de todas as instituições, e eu confio plenamente na condução das investigações pelas diferentes instâncias —Supremo Tribunal Federal, Polícia Federal, Ministério Público —, que estão trabalhando com autonomia e diligência.”
Em outro diálogo, surge o nome do presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), citado por Vorcaro como “um dos meus grandes amigos de vida”. Nogueira foi autor da chamada “emenda Master”, que sugeria elevar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. A proposta foi rejeitada, mas Vorcaro celebrou com Martha a apresentação do texto: “Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica no mercado financeiro! Ajuda os bancos médios e diminui o poder dos grandes!”.
Procurado, Nogueira disse em nota que “mantém diálogos por mensagens com centenas de pessoas, o que não o torna próximo apenas por, eventualmente, interagir com elas”. Afirmou que está tranquilo quanto às investigações relativas a Vorcaro porque não manteve “qualquer conduta inadequada”. Sobre a emenda, alegou que a cobertura do FGC está congelada no mesmo valor há dez anos, e que precisa ser corrigida para proteger os correntistas.
Outra liderança é o presidente do União Brasil, Antonio Rueda. Em um diálogo, o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, diz a Vorcaro que falou com o político sobre a transação e que ele queria se encontrar com o então banqueiro. A revista Piauí mostrou que o escritório de Rueda advogou para o Master, o que foi confirmado pelo líder do União. Um e-mail recebido pelo ex-banqueiro também mostrou que um helicóptero contratado por ele transportou Nogueira e Rueda para o autódromo de São Paulo para assistirem ao Grande Prêmio de Fórmula 1.
Na esfera do Executivo, veio à tona reunião, fora da agenda oficial, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com Vorcaro, da qual participaram outras autoridades, como o presidente do BC, Gabriel Galípolo, e ministros. Em entrevista ao UOL, Lula disse que recebeu o então banqueiro atendendo a pedido do ex-ministro Guido Mantega. “O que eu disse para ele: ‘Não haverá posição política pró ou contra o Banco Master. O que haverá será uma investigação técnica, feita pelo Banco Central’”, disse Lula.
Do círculo próximo do presidente, Vorcaro também contratou serviços de advocacia do escritório do ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski. Em nota, Lewandowski informou que, após deixar o STF, em abril de 2023, voltou a advogar. “Além de vários outros clientes, prestou serviços de consultoria jurídica ao Banco Master”, confirmou. Ao ser convidado para assumir o ministério, em janeiro de 2024, afastou-se do escritório e suspendeu seu registro na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
O Supremo foi igualmente dragado para a crise do Master. Em fevereiro, Dias Toffoli, então relator das investigações sobre o banco, teve que se afastar do caso e, posteriormente, se declarar suspeito. O ministro, junto com familiares, é dono da Maridt, empresa que vendeu parte do resort Tayayá, no Paraná, a um fundo de Zettel, cunhado de Vorcaro.
Toffoli tem minimizado o episódio. A princípio, o ministro negava que o negócio comprometeria sua isenção. Depois de se afastar da relatoria do Master e se declarar suspeito para votar em processos ligados ao banco, passou a dizer que não tem nenhuma relação com Vorcaro.
Mais recentemente foram revelados episódios envolvendo o ministro Alexandre de Moraes. Em dezembro, a colunista Malu Gaspar, de O Globo, revelou a existência de um contrato de R$ 129 milhões para que o escritório de Viviane Barci, esposa de Moraes, defendesse o Master no período de três anos. Gaspar também publicou reportagens indicando que Moraes teria procurado o presidente do BC para interceder em favor do Master, e revelou que Moraes teria recebido mensagens de Vorcaro no dia em que o ex-banqueiro foi preso pela primeira vez. “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear”, perguntou Vorcaro ao ministro antes de ser preso.
Segundo os investigadores, apenas uma parte do material apreendido foi periciada. Além das possíveis colaborações de Vorcaro e Zettel, esse é outro fato que preocupa autoridades dos três Poderes e sinaliza que as amplas ramificações do esquema ainda estão por ser detalhadas. Todos os citados nesta reportagem foram procurados e parte deles não se pronunciou.
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