Corrupção sistêmica na Polícia Civil

PF, MP e corregedoria revelam esquema em órgãos centrais, o que constrange a instituição


O Estado de S.Paulo

Sedes de órgãos da Polícia Civil de São Paulo foram recentemente alvo de um cerco de agentes da Polícia Federal (PF). Realizada pela força federal em parceria com o Ministério Público de São Paulo (MPSP) e a corregedoria da própria corporação paulista, a Operação Bazaar – do persa, “lugar dos preços” – expôs a proximidade de autoridades da instituição com o submundo do crime. Nessa investida de combate à corrupção, foram reviradas a 1.ª Delegacia de Lavagem de Dinheiro da Divisão de Crimes Contra a Fazenda, do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC); a 3.ª Delegacia da Divisão de Investigações Gerais (DIG) e a 4.ª Delegacia de Crimes Cibernéticos, ambas do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic); e o 35.º Distrito Policial, na Vila Guarani, na zona sul da capital paulista.


No dia 5 de março, foram cumpridos 11 mandados de prisão e 25 de busca e apreensão, além de terem sido bloqueados bens de 18 investigados, entre os quais policiais civis, advogados e até uma contadora e um doleiro, ambos conhecidos pela atuação nos esquemas revelados pela extinta Lava Jato. Para constrangimento da Polícia Civil, a PF prendeu um delegado de polícia, dois investigadores e um escrivão. E tudo isso só foi possível porque, após duas operações de combate ao crime de lavagem de dinheiro, em 2022 e 2023, a PF encontrou indícios de que os investigadores paulistas davam cobertura a integrantes de uma organização criminosa que fazia remessas milionárias ao exterior.

Os instrumentos usados pelos policiais civis para obter vantagens financeiras – leia-se, propinas – eram os inquéritos que abriam. Os investigadores solicitavam ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) relatórios de inteligência financeira (RIFs) dos suspeitos e, em vez de entregar as conclusões ao MPSP e à Justiça, mantinham os inquéritos abertos como uma faca no pescoço dos investigados. Assim, os policiais civis ameaçavam e chantageavam os suspeitos, associando-se, na prática, a eles. Não à toa os promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MPSP, escreveram que as condutas dos policiais “revelam elevado grau de comprometimento e prática de corrupção sistêmica”, cujo “balcão de negócios” teria movimentado nada menos do que R$ 33 milhões em propinas.

Apesar do vexame para a Polícia Civil, a Operação Bazaar é um bem-sucedido trabalho de inteligência, integração e colaboração entre a PF, o MPSP e a corregedoria. De posse das informações iniciais, os agentes federais passaram a cooperar com as autoridades paulistas e, juntos, desbarataram a atuação de policiais civis que escolheram atuar contra a população e a favor do crime. Ao MPSP agora cabe ir até o fim com seu trabalho de investigação, com a elaboração e apresentação de denúncia contra os maus – e espera-se que poucos – agentes civis. E à Corregedoria da Polícia Civil não resta outra tarefa agora senão punir, com rigor, na esfera administrativa delegados, investigadores ou escrivães que se refestelam no dinheiro sujo da corrupção.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para suas escolhas políticas

0/Post a Comment/Comments

Grato por sua colaboração.