Advogado que participou de contrato diz que negociação foi regular; governador afirma que se desligou de escritório; filho de Ibaneis e BRB não comentam
Por Daniel Weterman | O Estado de S.Paulo
BRASÍLIA — Um fundo ligado à Reag Investimentos, investigada no caso do Banco Master, pagou R$ 38 milhões para o escritório do advogado Caio Carvalho Barros, filho do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), e para outro aliado de Ibaneis ao adquirir um direito relacionado a honorários advocatícios logo antes de o Banco de Brasília (BRB) começar a negociar operações com o Master.
![]() |
| Filho de Ibaneis e aliado venderam crédito de R$ 38 milhões à Reag antes de BRB negociar com Master Foto: Renato Alves/Agência Brasília e Ibaneis Advocacia/Divulgação |
A negociação foi revelada pelo colunista Malu Gapsar, do jornal O Globo. O Estadão teve acesso ao documento. O advogado Engels Augusto Muniz, que participou da negociação, afirmou que o próprio governador propôs a venda, mas negou qualquer relação com o caso Master e afirmou que o contrato foi regular. Ibaneis disse que está desligado do escritório desde o fim de 2018. O filho do governador e o BRB não comentaram.
O contrato foi firmado no dia 29 de maio de 2024. Os escritórios assinaram no dia 3 de junho. O fundo da Reag assinou no dia 5. No mesmo mês de junho, o BRB, controlado pelo governo do DF, começou a fazer negócios com o banco de Daniel Vorcaro. Ibaneis é dono do escritório, mas se afastou da sociedade em 2018, quando foi eleito governador. O filho Caio se tornou advogado em 2022 e se tornou sócio, passando a representar a companhia.
O crédito foi vendido para um fundo ligado à Reag controlado pelo mesmo representante que apadrinhou dois indicados de Ibaneis no Conselho Fiscal do BRB, conforme o Estadão revelou. Após a reportagem revelar o caso, os dois conselheiros renunciaram aos cargos. A Reag é investigada nas operações Compliance Zero e Carbono Oculto por esquemas de lavagem de dinheiro e ligações com o crime organizado.
No mês seguinte, o BRB começou a negociar operações com o Master. Inicialmente, o banqueiro Daniel Vorcaro e a Reag se tornaram acionistas do Banco de Brasília. Depois, o banco estatal começou a comprar carteiras de crédito do Master. Em março de 2025, o BRB fez uma oferta para comprar parte do banco de Vorcaro. Ibaneis deu aval e apoiou publicamente a decisão.
As investigações da Polícia Federal mostraram que os créditos vendidos pelo Master para o BRB eram podres e inexistentes. As operações deixaram um prejuízo no Banco de Brasília calculado em pelo menos R$ 8 bilhões.
A compra do Master pelo BRB foi rejeitada pelo Banco Central em setembro. O Master foi liquidado em novembro, Vorcaro foi preso e hoje o BRB também é investigado por fraude.
O negócio entre a Reag e o escritório
O escritório de Ibaneis, em parceria com o escritório do advogado Engels Augusto Muniz, cedeu os honorários advocatícios para o “Reag Legal Claims Fundo de Investimento em Direitos Creditórios Não-Padronizados”. Muniz também é sócio do escritório de advocacia do secretário da Casa Civil de Ibaneis, Gustavo Vale Rocha, e foi secretário-executivo de Rocha no Ministério de Direitos Humanos, no governo Michel Temer (MDB).
Ibaneis defendeu o Sindicato dos Servidores do Poder Legislativo Federal e do Tribunal de Contas da União (Sindlegis/DF) em um processo em que servidores ativos e aposentados cobram da União o pagamento de benefícios vinculados ao exercício de funções comissionadas.
Ibaneis defendeu o Sindicato dos Servidores do Poder Legislativo Federal e do Tribunal de Contas da União (Sindlegis/DF) em um processo em que servidores ativos e aposentados cobram da União o pagamento de benefícios vinculados ao exercício de funções comissionadas.
A União foi condenada a efetuar os pagamentos, mas o processo não transitou em julgado - ou seja, ainda cabia recurso. Quando isso acontece, é comum que credores e advogados vendam seus direitos por um preço menor em troca de receber o dinheiro rapidamente.
Segundo o documento, o valor total da condenação é de R$ 381,3 milhões e foi vendido por R$ 38,1 milhões, o equivalente a 10% da condenação. O diretor do fundo que comprou os direitos é Marcos Ferreira Costa. Ele também é responsável pelo Fundo Borneo, que se tornou acionista do BRB e, em março de 2025, apoiou a eleição de dois advogados indicados por Ibaneis para o Conselho Fiscal do BRB.
Como a Coluna do Estadão mostrou, a oposição ao governador pediu que o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Ministério Público local apurem o contrato de R$ 38 milhões.
O deputado distrital Fábio Felix (PSOL) pediu que Ibaneis seja investigado no processo, para que a Polícia Federal apure se há outros contratos entre o governador e a Reag e se os preços pagos são compatíveis com valores de mercado.
O PSB, outro partido de oposição, pediu ao ministro do STF André Mendonça o afastamento do governador em função do contrato. Os partidos PSOL e Rede decidiram protocolar pedido de impeachment do governador na Câmara Legislativa do Distrito Federal.
Engels Augusto Muniz afirmou à reportagem que o negócio foi regular e negou qualquer relação com o caso Master. Ele disse que atuava no processo judicial junto com o Ibaneis antes mesmo de o político virar governador.
“Em determinado momento, ele (Ibaneis) entendeu que deveria vender esses créditos. Tínhamos uma expectativa de receber um valor muito maior e vendemos por um deságio muito grande. Procuramos vários fundos e um dos que aceitou pagar um valor razoável foi um fundo ligado à Reag", disse o advogado.
O escritório de Ibaneis ficou com a maior parte dos R$ 38 milhões. O advogado, porém, não informou o valor. Muniz negou qualquer relação entre a negociação e o caso Master. “Começamos a negociar a venda em 2021. Não existia nem BRB, nem Master, nem venda de BRB para Master nem compra desses ativos do Master.”
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para suas escolhas políticas

Postar um comentário
Grato por sua colaboração.