Tragédia do Vale do Cuiabá completa 15 anos

Na noite de 11 para 12 de janeiro de 2011, mais de 70 pessoas morreram em decorrência das fortes chuvas


Larissa Martins | Diário de Petrópolis

A maior tragédia climática já registrada na Região Serrana do Rio de Janeiro completa 15 anos neste domingo, 11 de janeiro. O desastre ocorrido em 2011 matou quase mil pessoas, deixou 100 desaparecidos e 30 mil desabrigados/desalojados. Em Petrópolis foram confirmadas ao menos 72 mortes, sendo o Vale do Cuiabá, em Itaipava, a área mais atingida, além de municípios do entorno, como São José do Vale do Rio Preto e Areal.

Foto: Arquivo

Em apenas três horas, o volume de água ultrapassou o esperado para todo o mês de janeiro. A enxurrada provocada pelos deslizamentos de terra somada ao transbordamento do Rio Santo Antônio, arrastou casas, pontes e estradas durante a noite do dia 11 para a madrugada de 12 de janeiro. Foram registrados 10 quilometros de destruição. Em alguns pontos, os índices pluviométricos ultrapassaram 200 milímetros, podendo ter chegado a 300 milímetros, segundo especialistas.

Uma década e meia de luta

Cláudia Renata Ramos, CEO da OSC UMAS (União Por Moradia e Assistência social) e Presidente do Movimento do Aluguel Social e Moradia de Petrópolis e da Comissão das vítimas das Tragédias da Região Serrana, morava na Estrada de Teresópolis, na altura de Benfica, e teve a casa interditada em 2011.

“Passaram-se 15 anos e muitos corpos não foram encontrados, pois famílias inteiras sumiram e não teve uma pessoa para reclamar. Por conta das tragédias que vieram após a de 2011, pouco se fala sobre as vítimas dessa época. Muitas, até hoje, esperam suas indenizações do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), tendo até processos junto ao Ministério Público. Inclusive, a saúde mental dessas famílias nunca mais foi a mesma, e até hoje o poder público não se preocupou em saber como estão, onde estão e se estão bem. Desde então, o posto de saúde da região utiliza salas emprestadas de uma escola no Bairro Boa Esperança, pois a unidade foi arrastada pelas águas. Há anos um terreno foi destinado para a construção, verbas que já foram destinadas para tal e até hoje nada. É um descaso total com a comunidade”, lamenta Cláudia.

Segundo ela, mais de 3 mil famílias aguardam por unidades habitacionais, prometidas pelo poder público.

“Na época foram entregues 75 unidades no Conjunto dos Kapua feitas pela Ferjan (2013) e em 2018 foram entregues 144 unidades na Posse para famílias das Tragédias do bairro de 1994, 1998 e de 2011. Em 2019 foram entregues 776 unidades no Vicenzo Rivetti para as famílias das tragédias de 1981, 1988, 1994, 1996, 1998, 2000, 2004, 2006, 2008 e 2011 (onde a maioria dos moradores do Vale do Cuiabá e bairros adjacentes foram alocados no bloco 1). E, agora, aguardamos o Conjunto Habitacional da Mosela para o restante dessas famílias de 2011. Lutamos por 7 anos correndo atrás desse empreendimento, mas, até o momento, nenhuma coluna foi feita para a construção das 140 unidades, que deu o start da obra em setembro de 2025. As famílias recebem um aluguel social de R$500 e se sentem humilhadas, pois ainda precisam complementar o valor, já que em Petrópolis não tem imóveis nesse valor. Muitos ainda tem esperança, através das ações abertas no MP, de um dia serem indenizados”, relata.

Assistência às vítimas

Cláudia atua em defesa das famílias atingidas, desde então. Durante as tragédias de 2022, que tiraram as vidas de mais de 200 pessoas, muitas vítimas receberam ajuda assistencial dela em parceria com voluntários e lideranças.

“Nessa época nasceu a Osc UMAS (União Por Moradia e Assistência social), que hoje junto ao Movimento do aluguel social e moradia de Petrópolis assistem cerca de 1.050 famílias que foram atingidas nas tragédias de 2011, 2013, 2015, 2018, 2020, 2021, 2022, 2024, além de famílias que todos os anos sofrem com os alagamentos no Olaria em Corrêas e no bairro Vila Epitácio em Nogueira”, conta.

Entre as principais demandas recebidas estão orientações para acesso ao aluguel social, mediação com os governo municipal e estadual, doação de cestas básicas, móveis e roupas infantis, além de auxílio para locação de imóveis, encaminhamento para vagas de empregos e direcionamento à Defensoria Pública ou à Ouvidoria.

“Costumo dizer às famílias que sou uma ponte para que elas consigam acessar seus direitos constitucionais relacionados a desastres”, conclui.

Posicionamentos

O Instituto Estadual do Ambiente (Inea), o Governo do Estado e a Prefeitura de Petrópolis foram questionados sobre as situações apresentadas na reportagem.

A PMP respondeu que, “A UBS que atende os moradores segue instalada no mesmo endereço onde funcionava antes da chuva de 2011. A Secretaria de Saúde está levantando as unidades que precisam de serviços de revitalização e essa UBS faz parte desse planejamento”.

Os demais não responderam até o fechamento da edição. O Diário aguarda o retorno.

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