Master: pressão de ministros do TCU, do STF e do governo Lula forçou relator a recuar

O recuo do Tribunal de Contas da União (TCU), que paralisou a inspeção do Banco Central e já sinalizou que não vai derrubar a liquidação do Banco Master, foi resultado de uma pressão que envolveu integrantes da própria Corte de Contas, do Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente do BC, Gabriel Galípolo, e até ministros do governo Lula preocupados com a repercussão no mercado financeiro de uma eventual reviravolta na situação do banco de Daniel Vorcaro.


Por Rafael Moraes Moura | O Globo — Brasília

Segundo relatos obtidos pela equipe da coluna, pelo menos três integrantes do TCU procuraram o presidente da Corte, Vital do Rêgo, para alertá-lo do risco de sair desmoralizado do episódio e manchar a imagem do tribunal, se continuasse apoiando a ofensiva do ministro Jhonatan de Jesus para colocar em xeque a autoridade do BC de zelar pela estabilidade do sistema financeiro nacional.

O ministro do TCU Jhonatan de Jesus durante sessão plenária em 5 de novembro de 2025 — Foto: Antonio Leal/TCU

“Vital do Rêgo ia virar um pato manco faltando um ano para acabar o mandato dele na presidência”, diz um ministro ouvido reservadamente pelo blog. “Ninguém quer passar para o Supremo e para a opinião pública a imagem de que está do lado dos bandidos.”

Conforme informou o blog, a ofensiva da dobradinha Vital do Rêgo- Jhonatan de Jesus contra a liquidação do banco Master conseguiu unir ministros de diferentes alas do Supremo Tribunal Federal (STF). Em conversas reservadas, três deles se disseram chocados com a iniciativa, que consideraram um “absurdo”.

Na avaliação de integrantes do STF, o TCU estava extrapolando suas competências ao se debruçar sobre os procedimentos adotados pelo BC na liquidação extrajudicial do Master. Caso a Corte de Contas derrubasse a liquidação do Master, como foi cogitado pelo próprio relator, ministros do STF ressaltaram que cabe mandado de segurança no Supremo para tentar reverter a decisão e restaurar o entendimento do Banco Central.

Em mensagem disparada num grupo de WhatsApp formado pelos ministros do TCU, Vital do Rêgo chegou a dizer aos colegas que o tribunal estava “sob ataque”, saiu em defesa de Jhonatan de Jesus, sustentou que “nada de incomum está sendo feito” e afirmou que a “imprensa reverbera uma única narrativa”.

Um dia depois, o discurso mudou radicalmente. Sob pressão tanto na Corte quanto fora dela, Vital do Rêgo garantiu em entrevista à agência Reuters que o “processo de 'desliquidação' do Master não cabe ‌ao TCU”.

‘Máxima urgência’

No entorno de Vorcaro, antes mesmo do cavalo de pau dado pela dupla Rêgo-Jesus, já havia quem defendesse uma solução “mais criativa” para contornar a questão, que não passasse necessariamente por uma decisão do TCU suspendendo os efeitos da liquidação decretada pelo BC.

Em decisão tomada na última segunda-feira, Jhonatan havia determinado com “máxima urgência” a realização de uma inspeção no BC, pelos técnicos do TCU, no processo que levou à liquidação do Master. Segundo a apuração da autarquia, os contratos que justificaram o repasse de R$ 12,2 bilhões do BRB para o Master foram falsificados.

Em um despacho de cinco páginas, o relator disse não ser adequado “antecipar juízo conclusivo” sobre se o Banco Central atendeu os critérios necessários para liquidar a instituição, mas ameaçou desfazer o processo em “momento oportuno”, “diante do risco de prática de atos potencialmente irreversíveis”.

Milícias digitais

Enquanto a temperatura política esquentava em Brasília, influenciadores de direita receberam propostas milionárias para disseminar em seus perfis nas redes a narrativa de que o BC foi precipitado ao decretar a liquidação do Master, conforme revelou o blog.

A iniciativa, batizada de “Projeto DV” (em referência às iniciais do executivo Daniel Vorcaro), pretendia endossar a posição do TCU e tentar minar a credibilidade do BC.

“Jhonatan percebeu que não tinha suporte no tribunal, e quando o presidente Vital recuou, não sobrou nada para ele além de recuar também”, comenta um integrante da Corte de Contas. “Jhonatan é um cara de Roraima, não está acostumado com o escrutínio público.”

Para um ministro do governo Lula, o recuo tático do TCU ajuda a acalmar o ambiente.

A Corte de Contas é um órgão de controle externo do governo federal e auxilia o Congresso na fiscalização do gasto público. Ao ter a sua indicação para o TCU aprovada pela Câmara em 2023, o então deputado do Republicanos disse que o “TCU não existe para punir, mas para auxiliar o Parlamento”.

“Ninguém sob minha orientação será condenado com base em interesses de grupos ou de pessoas que queiram transformar o TCU numa arena de perseguição política a adversários”, afirmou à época o deputado Jhonatan de Jesus.

O ministro Jhonatan, como se viu, foi por outro caminho.

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