Publicações feitas em dias e horários próximos repetiam o mesmo questionamento à decisão do Banco Central; PF analisa indícios de ataque coordenado para eventual abertura de inquérito
Por Jayanne Rodrigues | O Estado de S.Paulo
Levantamento feito pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban) aponta para um possível ataque coordenado a instituições como o Banco Central (BC) e a própria federação, no final de 2025. O Estadão analisou o conteúdo, os horários das postagens e os pontos em comum entre os materiais publicados.
Apesar de diferenças na maneira do pronunciamento nos vídeos, as postagens apresentam elementos em comum. Todos os influenciadores publicaram conteúdos no final de dezembro, tendo como referência o mesmo conteúdo, que seria uma possível revisão da liquidação do Master.
Outra semelhança é que, embora adaptado ao estilo de cada perfil, o discurso compartilhado nas redes sociais sugere desconfiança sobre a atuação dos órgãos reguladores e questiona a “rapidez” da decisão. Em nenhum dos casos, as publicações foram identificadas como publicidade.
Com exceção da influenciadora Carol Dias e de seu irmão André Dias, que comandam o Irmãos Dias Podcast, voltado a investimentos, os demais influenciadores citados não têm atuação no mercado financeiro. A maioria alimenta a conta com publicações de entretenimento, principalmente comentários sobre a vida pessoal de celebridades.
No caso de Carol Dias, em 9 de dezembro, ela publicou um vídeo afirmando que o Banco Master havia “desmoronado” e que os impactos poderiam atingir “municípios e aposentadorias”. Já em 29 de dezembro, o tom mudou e passou a ser um questionamento da decisão do BC. Procurados pelo Estadão, os influenciadores André e Carol Dias não se manifestaram.
Fofocas e conteúdos de coach
Entre os influenciadores citados está Paulo Cardoso, que se apresenta como hipnoterapeuta, neuropsicanalista e especialista em mente inconsciente e liberdade humana. No vídeo publicado dia 19 de dezembro, Cardoso afirma que “quando um órgão como o Tribunal de Contas da União (TCU) entra no caso, é porque tem coisa errada”.Em publicação feita na terça-feira, 6, ao comentar uma notícia da jornalista Malu Gaspar, de O Globo, Cardoso afirmou que “não recebeu nada”, em resposta às acusações de que teria sido pago para criticar o BC. Disse ainda não ter assinado contrato “com banco nenhum” e sustentou que suas opiniões são “100% livres”.
Linha do tempo das publicações
O Estadão montou uma linha do tempo para acompanhar a proximidade entre datas e conteúdos dos influenciadores suspeitos de participar do suposto ataque coordenado.Por exemplo, no dia 19 de dezembro, às 19h4, o criador de conteúdo Firmino Cortada, que soma mais de 500 mil seguidores apenas no TikTok, publicou um vídeo comentando a decisão do TCU sobre a liquidação do Banco Master. No vídeo, ele diz que o BC deve ter “autonomia para trabalhar”, mas seguindo as normas estabelecidas pelo TCU.
O conteúdo contrasta com o perfil habitual de Firmino, que costuma compartilhar mais assuntos envolvendo influenciadores como Virgínia Fonseca e Carlinhos Maia. Em nota, Firmino afirmou que as publicações decorrem de “posicionamento pessoal e independente”, no exercício da “liberdade de expressão”, e negou qualquer vínculo comercial, publicitário ou contratual com o banco ou terceiros interessados.
Outro nome citado é Marcelo Rennó, que se apresenta como especialista em Reels. Em seu perfil, também costuma comentar assuntos de famosos, como a relação entre Fiuk e o pai, Fábio Jr., a saúde do ex-presidente Jair Bolsonaro e o fim do casamento de Ivete Sangalo.
Rennó publicou um vídeo sobre o caso em 26 de dezembro e voltou ao tema em 29 de dezembro, esta última postagem é considerada suspeita. Na gravação, classifica a decisão do BC como “muito suspeita” e “estranha”. Após a repercussão, publicou outro vídeo negando ter recebido qualquer valor para se posicionar sobre o assunto. A reportagem entrou em contato com o criador do conteúdo, mas até o momento da publicação não houve retorno.
Conforme apurado pelo Estadão, por trás da página Alfinetei estão três sócios ligados a pelo menos cinco empresas formalmente registradas e a uma rede de perfis que soma quase 40 milhões de seguidores. O principal nome é João Guilherme Chagas Gabriel, sócio-administrador das empresas citadas. Em seu perfil pessoal no Instagram, ele publica fotos de viagens e se apresenta como CEO de seis páginas, embora os registros formais indiquem cinco.
Outro sócio é Marcos Almeida de Lima, também sócio-administrador das empresas ligadas às páginas Alfinetei e Babadeira, que igualmente compartilharam conteúdos sobre a liquidação do Banco Master.
O que diz a Febraban
Levantamento da Febraban obtido pelo Estadão/Broadcast indica que o pico das publicações ocorreu em 27 de dezembro, quando foram registrados 4.560 posts sobre o tema. Nos dias seguintes, houve uma “redução significativa” no volume. Nas 24 horas até o dia 5 de janeiro, por exemplo, foram contabilizadas 132 publicações, todas provenientes da plataforma X. Em nota, a Febraban afirmou que realiza, de forma periódica, monitoramento de postagens em redes sociais relacionadas à sua atuação e à do setor bancário.“Nesses levantamentos recorrentes, foi identificado, no final de dezembro, volume atípico de postagens com menções relativas à entidade e seus representantes, referentes ao noticiário sobre liquidação de instituição financeira”, diz a nota. “A Febraban está analisando se as postagens identificadas naquele período caracterizariam ou não eventual ataque coordenado à entidade, sendo que já se observou nos últimos dias uma redução significativa daquele volume atípico.”

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