Master, Refit e carbono oculto: o elo entre Faria Lima, Centrão e o crime organizado

Operações da PF colocaram em xeque esquema criminoso que une facções criminosas, como PCC e Comando Vermelho, à megrafraudadores do setor de combustíveis, fintechs e bancos da Faria e lobistas políticos da direita, ultradireita e Centrão.


Plinio Teodoro | Revista Fórum

“É o andar de cima que irriga com bilhões as atividades criminosas. Não estamos falando de milhões, mas de bilhões”, disse o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, após a operação contra o Grupo Refit, do megafraudador Ricardo Magro — o maior devedor de impostos do Brasil —, que montou uma estrutura que lavou o equivalente a R$ 1 bilhão por meio de 15 offshores instaladas no estado de Delaware, nos Estados Unidos, um paraíso fiscal que pouco aparece na mídia liberal.


A Operação Poço de Lobato, contra Ricardo Magro e o Refit, interliga-se à Compliance Zero, que levou Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, a passar alguns dias na cadeia, e à Carbono Oculto, que investiga o uso de fintechs na Faria Lima e no setor de combustíveis para lavar dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa que nasceu e atua a partir de São Paulo.

Esse “andar de cima” do crime organizado tem muitas coisas em comum, entre elas nomes ligados ao mesmo grupo político, que vai da direita fisiológica à ultradireita bolsonarista, e que atuam no lobby para blindar os ricaços, seja de impostos, seja da cadeia.

Carbono Oculto: a origem

Enquanto o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), levantava uma nuvem de fumaça matando 122 pessoas — entre elas cinco policiais — nas operações nas comunidades do Alemão e da Penha para antecipar o debate eleitoral sobre segurança pública, a Polícia Federal (PF) avançava em um território hostil e pouco conhecido do crime organizado.

Essa incursão passa pela paulistana Avenida Faria Lima, onde se abrigam os endinheirados do sistema financeiro, pela carioca Barra da Tijuca, onde políticos como os do clã Bolsonaro dividem condomínios com matadores e traficantes internacionais de armas, e pelo rico interior paulista, onde “empresários” de clubes de tiro são usados para escoar fuzis vindos dos EUA e municiar facções, como o Comando Vermelho (CV), na guerra contra policiais — oriundos, muitas vezes, das mesmas comunidades em que jovens e até crianças são recrutados para entrar nas fileiras do tráfico de drogas.

Desencadeada em agosto, a Operação Carbono Oculto levou um verdadeiro exército formado por agentes das polícias Federal, Militar e Civil, além de promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo e fiscais da Receita Federal e estadual à passarela de engravatados da Faria Lima.

A ação atingiu o coração financeiro do crime organizado, cumprindo mandados de busca e apreensão em 42 alvos, entre empresas, bancos e fundos de investimento. A estrutura financeira era usada, segundo a PF, pelos “empresários” Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”, e Mohamad Hussein Mourad, o “Primo”, que faziam a ponte entre o PCC e o Grupo Refit, de Ricardo Magro, usando o setor de combustíveis para lavar o dinheiro do tráfico de drogas.

Segundo a PF, o grupo criminoso atuava desde 2019, quando Bolsonaro chegou à Presidência, e é suspeito de ter movimentado mais de R$ 23 bilhões por meio de uma rede composta por centenas de empresas, incluindo postos de combustíveis, distribuidoras, holdings, empresas de cobrança e instituições de pagamento autorizadas pelo Banco Central.

Somente a fintech BK Bank, fundada em 2019, teria sido usada por Primo para movimentar cerca de R$ 17,7 bilhões de forma suspeita, com sonegação de R$ 1,4 bilhão em impostos — dinheiro que tinha origem no tráfico de drogas do PCC e na sonegação de impostos pelo Grupo Refit.

Conforme a Fórum havia antecipado, o Grupo Refit usava como laranja Cristiano Moreira Pinto Beraldo, comentarista da Jovem Pan — emissora na qual atacava o governo Lula — e figura proeminente do Movimento Brasil Livre (MBL). Segundo as investigações, Beraldo era uma das peças-chave da operação das offshores de Magro em Delaware, nos EUA, um verdadeiro bunker para ocultação de bens que, segundo o fisco, pertencem de fato ao empresário Ricardo Magro.

De acordo com a PF, além da aquisição de imóveis, o esquema de lavagem de dinheiro do grupo incluía o tráfico de armas pesadas dos EUA, como AK-47 e AR-10, que eram enviadas em contêineres.

As armas eram entregues a “empresários”, como Josias João do Nascimento, um agente aposentado da própria PF que foi classificado como “Senhor do Senhor das Armas” por ser o chefe do brasileiro Frederik Barbieri, condenado por tráfico internacional de armas pela Justiça dos EUA e que até então sustentava o título de “Senhor das Armas” no Brasil. Nascimento foi preso em sua mansão em um condomínio de alto luxo na Barra da Tijuca, bairro nobre da Zona Oeste do Rio.

Outro receptor dos fuzis no Brasil era o CAC (sigla de colecionador, atirador e caçador) Eduardo Bazzana, 69 anos, tido, até sua prisão pela PF em maio, como um bem-sucedido empresário, dono do Clube Americanense de Tiro e sócio de quase uma dezena de empresas em Americana, no interior de São Paulo.

Na mansão de Bazzana, foram apreendidas mais de 200 armas, 40 mil munições e ainda carros de luxo, como um Cadillac de mais de R$ 2 milhões. Entre os 7 mil sócios do clube de tiro havia empresários, policiais e políticos — cujos nomes não foram revelados.

O empresário paulista tinha como interlocutor no Comando Vermelho Luiz Carlos Bandeira Rodrigues, conhecido como “Zeus”, que comandava a ação da facção em um complexo de favelas na Muzema, Zona Oeste do Rio, que a facção tomou de um grupo de milicianos ligados ao clã Bolsonaro.

A Muzema foi onde Fabrício Queiroz se abrigou quando estourou o escândalo das rachadinhas no gabinete de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Segundo o Ministério Público do Rio, parte do dinheiro das “rachadinhas” teria financiado a construção de prédios irregulares em Rio das Pedras, área até então controlada pela mesma milícia que comandava a Muzema.

“Armas estão chegando ao Brasil em contêineres de lá; vêm peças de reposição ou o próprio armamento, ilegalmente. Pedi para o [secretário da Receita, Robinson] Barreirinhas fazer um relatório documentando com fotografias, número de contêineres, demonstrando que a parceria é fundamental. Se queremos impedir que a droga chegue lá [nos EUA], é fundamental que se iniba o crime nos territórios, impedindo que o armamento pesado chegue ao Brasil”, afirmou Haddad.

Banco Master

As investigações ainda revelaram uma triangulação. Relatórios da Receita Federal apontam repasses diretos de R$ 17 milhões da esposa de Mohamad Hussein Mourad, o operador do PCC, ao fundo Hans 95, via BK Bank.

Ligado à gestora Reag, o fundo de investimento — que operava utilizando uma estrutura em cascata que dificultava o rastreamento dos aportes — despejou bilhões de reais no Banco Master, de Daniel Vorcaro, com a compra de certificados de depósito bancário (CDBs) e outros títulos podres.

Vorcaro foi preso no dia 18 de novembro na Operação Compliance Zero, que detectou, entre outras irregularidades, a venda de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito inexistentes ao Banco de Brasília (BRB). A fraude foi justificada com documentos falsificados junto ao Banco Central (BC), que, no mesmo dia, decretou a liquidação da instituição.

Os aportes ao Master também contaram com quase R$ 1 bilhão da Rioprevidência – fundo que gere recursos de 235 mil servidores aposentados e pensionistas do Rio –, o que foi autorizado pelo governo Cláudio Castro.

As quantias vultosas vindas do crime organizado tinham como objetivo dar uma aparência de sanidade ao Banco Master enquanto Vorcaro tentava uma manobra junto ao governador bolsonarista do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB). A negociata envolvia a aquisição do Master pelo Banco de Brasília e a subsequente nomeação de Vorcaro para presidir a instituição estatal do DF.

Além das relações com Ibaneis e o grupo político de José Roberto Arruda, no Distrito Federal, Vorcaro conta com Ciro Nogueira, presidente nacional do PP, como principal lobista nos bastidores do poder.

Ex-assessor de Nogueira, Victor Linhares também foi alvo de um desdobramento da Operação Carbono Oculto por receber R$ 230 mil de Haran Sampaio, antigo dono da rede de postos HD, que seria o epicentro do esquema criminoso no Piauí.

Além de Nogueira, Antônio Rueda, presidente nacional do União — que busca a federação com o PP —, é citado como dono oculto de aviões e ativos financeiros supostamente ligados ao esquema do PCC.

Em 2026, as incursões da Polícia Federal no “andar de cima” devem, finalmente, dar um xeque-mate na estrutura do crime organizado que conecta drogas, armas, combustíveis, Faria Lima e o submundo da política, especialmente na direita e na ultradireita.

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