É uma lástima que corporativismo da Alerj tenha livrado Bacellar da prisão

Presidente da Assembleia fluminense é acusado de acobertar deputado vinculado ao Comando Vermelho


O Globo

Foi lamentável a decisão da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) que revogou a prisão do presidente afastado da Casa, Rodrigo Bacellar (União), determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Bacellar é acusado de vazar informações de uma operação da Polícia Federal (PF) destinada a prender o também deputado Thiego Raimundo dos Santos Silva, o TH Joias (MDB), suspeito de ser o braço político do Comando Vermelho (CV). Tendo em vista o histórico corporativista da Alerj, o resultado não chega a surpreender. Nem por isso é menos escandaloso.

Rodrigo Bacellar: Alerj votou pela revogação da prisão do deputado — Foto: Márcia Foletto/Agência O Globo//22-05-2025

Não se pode dizer nem que a Casa tenha ficado dividida. Embora a votação na Comissão de Constituição e Justiça tenha sido apertada (4 a 3), no plenário a revogação da prisão ganhou com folga — 42 a 21, com duas abstenções e cinco ausências. Chama a atenção o amplo arco de apoios. Dos 18 partidos, 14 deram um ou mais votos a Bacellar. A condescendência permeou todas as tendências políticas. Na tentativa de reduzir o constrangimento, a TV Alerj não transmitiu a sessão em sinal aberto, e o painel não exibiu o voto de cada deputado.

Não se tratava de questão menor. Bacellar, de acordo com a investigação, avisou TH Joias sobre a operação da PF, permitindo que esvaziasse sua casa, trocasse de celular e eliminasse provas comprometedoras. Quando os policiais chegaram, não o encontraram (ele foi preso noutro endereço). Impressiona que os deputados fluminenses não considerem graves acusações como tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e negociação de armas para o CV.

Na decisão que determinou a prisão na semana passada, o ministro Alexandre de Moraes disse haver “fortes indícios” da participação de Bacellar numa organização criminosa. Ele atuava, nas palavras de Moraes, ativamente “pela obstrução de investigações envolvendo facção criminosa e ações contra o crime organizado, inclusive com influência no Poder Executivo estadual”.

O Rio, como outros estados brasileiros, é refém de facções criminosas. Na Região Metropolitana, 4 milhões de moradores estão sob o domínio de grupos armados, ou mais de um terço da população. Cada vez mais, o crime organizado se infiltra em atividades formais e na política, buscando influenciar decisões. Tal calamidade deveria ter sido levada em conta pela Alerj, mas os parlamentares preferiram fechar os olhos à realidade.

Ontem, ao conceder liberdade provisória a Bacellar, Moraes determinou que o parlamentar cumpra medidas cautelares enquanto durarem as investigações, como afastamento da presidência da Casa, recolhimento domiciliar no período noturno e uso de tornozeleira eletrônica. Seria mesmo inaceitável se Bacellar continuasse à frente do Legislativo fluminense. As acusações que pesam sobre ele são graves e sugerem relações promíscuas com facções criminosas que deveriam ser combatidas por todos os Poderes. Com que autoridade ele comandaria a votação de projetos sobre segurança pública?

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