Banco Central afirma que enviou ao MPF nova comunicação de suspeitas de ‘gestão fraudulenta’ e que eventual reversão da liquidação do banco de Vorcaro oferece riscos ao sistema
Por Vinícius Valfré e Alvaro Gribel | O Estado de S.Paulo
BRASÍLIA – Em resposta ao Tribunal de Contas da União (TCU), o Banco Central (BC) afirmou que a liquidação do Banco Master se deu em razão de uma “profunda e crônica crise de liquidez” da instituição e de um “grave e reiterado descumprimento de normas que disciplinam sua atividade” por parte da empresa de Daniel Vorcaro.
![]() |
| O Banco Central, em Brasília Foto: Dida Sampaio/Estadão |
A instituição chefiada por Gabriel Galípolo diz que, sete dias após decretar a liquidação do Banco Master, o BC fez uma nova comunicação de crime ao Ministério Público Federal (MPF) por suspeitas na condução do Master.
“Em 25 de novembro de 2025, após a decretação da liquidação extrajudicial, realizou-se nova comunicação de crime ao MPF, por indícios de condutas relacionadas à gestão fraudulenta de instituição financeira, à realização de operação simulada ou sem lastro e ao emprego de artifícios destinados a criar aparência de legalidade para operações desprovidas de substância econômica”, diz o Banco Central.
O documento sigiloso enviado pelo Banco Central ao TCU na segunda-feira, 29, ao qual o Estadão teve acesso, salienta que as evidências colhidas sugerem que recursos do Master foram “reciclados por meio de uma cadeia de fundos e sociedades interpostas”. O objetivo seria dar aparência formal a transações com a mesma origem e o mesmo beneficiário final.
“Tal dinâmica, além de violar princípios de transparência e segregação fiduciária, pode configurar fraude na gestão e simulação de operações financeiras, nos termos da legislação penal aplicável”, disse o BC.
A resposta do BC, produzida em formato de nota técnica, cita ainda outra comunicação ao MPF em 17 de novembro, véspera da decretação da liquidação do Master. A suspeita estava relacionada a R$ 11,5 bilhões em operações que “revelaram inadequado gerenciamento de capital e risco, com negócios sem garantia, liquidez e diversificação, agravando a crise e justificando processos administrativos sancionadores”.
O arquivo enviado ao TCU não detalha quais seriam essas operações, mas a reportagem conversou com pessoas a par das apurações e elas disseram que a fraude tem relação com fundos ligados à gestora de fundos Reag Capital Holding, alvo de busca e apreensão pela Polícia Federal na Operação Carbono Oculto, que investiga o uso de fundos e gestoras para lavagem de dinheiro pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), em 28 de agosto.
As operações bilionárias ocorreram entre julho de 2023 e julho de 2024. O esquema teria funcionado, por meio de uma longa cadeia de intermediários, da seguinte forma: o Master captava recursos no mercado e os emprestava para empresas supostamente ligadas ao grupo. Essas empresas colocavam os recursos em um fundo de investimento. Esse fundo comprava ativos de baixa liquidez, que estavam sobrevalorizados, ou seja, com valor muito acima do valor real, de mercado. O vendedor desses ativos redistribuía esse “lucro” para outros fundos ligados à Reag.
Liquidação do Master era solução após ‘esgotamento de alternativas’, diz BC
O BC afirmou também que a liquidação do Master, decretada em novembro, era a solução adequada após um “esgotamento de alternativas” buscadas desde o início do mapeamento de problemas na operação do banco e destacou que uma eventual reversão da decretação da liquidação do Master poderia acarretar danos graves ao sistema financeiro.“Diante do esgotamento de todas as alternativas de solução de mercado, a identificação de crítica situação econômico-financeira, que impediria a instituição de honrar suas obrigações, e a verificação de irregularidades graves – com indícios de crimes que afetavam o valor dos ativos do conglomerado e comprometiam sua solvência –, a liquidação foi decretada como medida indispensável para a proteção do sistema financeiro e da poupança popular”, frisou.
O documento foi enviado ao TCU como resposta a pedido de explicações feito pelo ministro Jhonatan de Jesus, responsável pelo processo que analisa as providências do Banco Central em relação ao Master. No despacho no qual pedia esclarecimentos, o relator apontou “precipitação” do órgão regulador.
O Banco Central apresentou uma lista de irregularidades apontadas ao longo do processo de supervisão no Master:
- atrasos na entrega de documentos regulamentares e contábeis por parte de todas as entidades do Conglomerado Prudencial Master, exceto a Will Financeira;
- esgotamento de carteiras de crédito geradoras de fluxo de caixa, tendo remanescido apenas ativos de longo prazo de maturação, sem mercado com a profundidade necessária para a sua alienação e sem garantias que assegurem, no caso de execução ou de venda forçada, recuperabilidade razoável de valor;
- comprometimento da solvência do conglomerado, em razão da necessidade de realização de ajustes contábeis obrigatórios decorrentes de ativos problemáticos e sem liquidez, com potencial de redução em estimados R$20 bilhões no Patrimônio de Referência, data-base maio de 2025;
- incapacidade de recompor minimamente o recolhimento compulsório sobre depósitos a prazo, em decorrência de estratégias de negócio que, além de inadequadas, foram permeadas por condutas que extrapolaram os limites da boa prática bancária;
- realização de operações estruturadas com clientes da linha corporate que não geraram fluxos financeiros relevantes, sem observância dos princípios de garantia, liquidez e diversificação de riscos; e
- conforme mencionado acima, cessão de carteiras de crédito ao BRB com operações insubsistentes ou com ativos cuja existência não poderia ser comprovada.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para suas escolhas políticas

Postar um comentário
Grato por sua colaboração.