J&F, dos irmãos Batista, compra participação na Eletronuclear e estreia no mercado de energia nuclear

Valor do negócio anunciado pela Eletrobras é de R$ 535 milhões


Por João Sorima Neto | O Globo — São Paulo

A Eletrobras anunciou nesta quarta-feira que vendeu 100% de sua participação na Eletronuclear, empresa responsável pela operação e construção de usinas nucleares no país, como Angra 1 e 2, em Angra dos Reis, para a J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista. O valor do negócio é de R$ 535 milhões pelas ações da empresa, mas a J&F assumirá também outros compromissos que a Eletronuclear possui.

A usina de Angra 1 passou por parada para modernização após ter licença prorrogada por mais 20 anos — Foto: Alexandre Cassiano/Agência O Globo

A possibilidade de venda da Eletronuclear estava prevista no Termo de Conciliação firmado com a União e submetido à homologação na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) nº 7.385.

De acordo com analistas, o negócio marca a entrada da empresa dos irmãos Batista na geração nuclear, e libera a Eletrobras de uma série de obrigações associadas a um setor do qual buscava desinvestir.

"O movimento é coerente com o foco estratégico da Eletrobras de se consolidar como a maior empresa de energia elétrica renovável do país após a privatização", escreveram os analistas da Ativa investimentos.

Após o anúncio da venda, as ações da Eletrobras registraram alta no Ibovespa. Às 12h04, os papéis subiam 2,85%, cotados a R$ 53,31.

Simplificação de estrutura

Com a venda de sua participação, a Eletrobras simplifica sua estrutura corporativa e reduz incertezas jurídicas e regulatórias associadas à Eletronuclear. No início deste ano, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) do governo federal adiou a decisão sobre a retomada das obras de Angra 3, terceira usina nuclear do país. O complexo está em construção desde a década de 1980, se tornou um dos projetos mais longos e controversos do setor energético nacional.

A Eletrobras já vinha desinvestindo em termelétricas, inclusive com vendas anteriores à própria J&F, com foco na estratégia de concentrar recursos em geração renovável e transmissão. Ainda neste mês, a Eletrobras vendeu a usina termelétrica movida a gás natural Santa Cruz, no Rio de Janeiro, para a J&F, por R$ 703,5 milhões.

A usina era a última de um pacote de 13 térmicas que tiveram a venda anunciada pela Eletrobras em junho do ano passado para a Âmbar Energia, braço de energia do Grupo J&F. Segundo a Eletrobras, o negócio gerou um total de R$ 3,6 bilhões para a Eletrobras. As outras 12 usinas desse pacote estão localizadas no Amazonas.

A transação marcou o fim do processo de desinvestimento dos ativos termelétricos e o início de um portfólio de geração que passa a ser composto exclusivamente por fontes 100% renováveis. A meta da empresa é ser Net Zero já em 2030, zerando a emissão de gases causadores do efeito estufa.

Para o analista da Ativa Investimentos, Ilan Arbetman, a venda da Eletronuclear libera caixa para a Eletrobras, abrindo espaço para novos investimentos alinhados com os novas diretrizes da empresa. Ele lembra que os investimentos tanto para a conclusão quanto para o abandono do projeto de Angra 3 são bilionários. Portanto, para a Eletrobras vender a Eletronuclear faz todo o sentido, considerando o foco em geração de fontes renováveis e transmissão após a privatização.

— A Eletrobras se livra de ter que investir algo como R$ 20 bilhões para concluir Angra 3, um ativo que não é mais seu foco, e cria espaço para alocar capital em projetos que fazem sentido para a companhia — diz Ilan Arbetman, lembrando que para a J&F, que já vinha estava expandindo seu porfólio de energia, avança ainda mais com usinas nucleares, uma operação que é 'nichada' no Brasil.

Segundo o comunicado, a J&F deterá uma participação de 68% do capital total e de 35,3% do capital votante da Eletronuclear, que segue controlada pelo governo, através da Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear (ENBPar), estatal vinculada ao Ministério das Minas e Energia, que detém 64,7% do capital votante e cerca de 32% do capital total.

Outras responsabilidades assumidas pela J&F

No negócio, a empresa dos irmãos Batista assumirá as responsabilidades que eram da Eletrobras na Eletronuclear, como as garantias prestadas em favor da estatal aos credores da coligada. Além disso, a J&F também ficará responsável pela futura integralização das debêntures emitidas em acordo firmado com a União no início deste ano, no valor de R$ 2,4 bilhões. A empresa se comprometeu a destinar esses recursos para a extensão da vida útil de Angra 1.

Os analistas do Itaú BBA avaliam que a venda da Eletronuclear representa "o último grande esforço" de redução da exposição a riscos da Eletrobras desde seu processo de privatização, em 2022. Para os especialistas do Itaú, entre os pontos positivos do negócio, está a desobrigação da Eletrobras em subscrever os R$ 2,4 bilhões em debêntures, além de abir mão das garantias dadas em favor da Eletronuclear, que totalizam R$ 6 bilhões.

"O negócio tem o potencial de criar um crédito tributário significativo após a conclusão da transação, visto que a empresa provisionará R$ 7 bilhões no terceiro trimestre", escreveram os analistas do Itaú BBA.

A venda da participação na Eletronuclear foi assessorada pelo banco BTG Pactual, num processo que começou em 2023. A Eletrobras informou que, considerando o valor de investimento feito na Eletronuclear de R$ 7,8 bilhões, no segundo trimestre deste ano, o processo de venda resultou numa provisão de aproximadamente R$ 7 bilhões, a ser contabilizada no terceiro trimestre deste ano.

"A transação representa um marco importante para a Eletrobras e reforça o compromisso assumido com os seus acionistas e o mercado, de otimização de seu portfólio e alocação de capital, com foco na geração de valor e simplificação de sua estrutura conforme previsto em seu Plano Estratégico", informou a companhia ao mercado.

A compra da Eletronuclear mostra o apetite dos Batista em diversificação de seus negócios e receitas. São donos da maior processadora de carnes do mundo, a JBS, entraram no segmento financeiro, com o PicPay e o Banco Original, e agora ampliam seus investimentos em energia.

Âmbar amplia seu portfólio de energia

Com o negócio, a Âmbar Energia marca sua entrada na geração de energia nuclear e “reforça sua posição estratégica no sistema elétrico brasileiro”. A empresa lembra que a operação ainda depende da aprovação dos órgãos reguladores.

A Âmbar é a segunda maior geradora privada de energia termelétrica a gás natural do Brasil em capacidade instalada e atua nos setores de geração e distribuição. A companhia é dona de distribuidoras e de usinas hidrelétricas, solares, de biomassa e biogás, além de operar termelétricas a gás natural e carvão, além de gasodutos.

Com a compra da participação na Eletronuclear, a Âmbar amplia e diversifica ainda mais seu portfólio de geração de energia, que atualmente soma 50 unidades, considerando negócios já concluídos e transações em fase de fechamento. Entre seus ativos estão a Usina Fotovoltaica de Saltinho (SP), a Usina Fotovoltaica de Itumbiara (GO), a Termelétrica de Cuiabá (MT), a Usina de Biogás de Andradina (SP) e a Termelétrica de Uruguaiana (RS). No total, são 4 GW de capacidade instalada.

A Eletronuclear, por sua vez, possui três ativos com potencial para gerar até 3.400 megawatts — o suficiente para abastecer mais de 10 milhões de pessoas. A empresa opera as usinas nucleares Angra 1 e Angra 2, com capacidades instaladas de 640 MW e 1.350 MW, respectivamente, e supervisiona o projeto de Angra 3, ainda em desenvolvimento.

Em nota, o presidente da Âmbar Energia, Marcelo Zanatta, destacou que “a energia nuclear combina estabilidade, previsibilidade e baixas emissões, características fundamentais em um momento de descarbonização e de crescente demanda por eletricidade impulsionada pela inteligência artificial e pela digitalização da economia”.

As duas usinas em operação possuem contratos de longo prazo, o que garante receitas previsíveis: Angra 1 está contratada até 2044 e Angra 2, até 2040. “A participação na Eletronuclear nos assegura fluxo estável de receitas, com energia gerada próxima aos maiores centros de consumo do país”, afirmou Zanatta.

Em 2024, a Eletronuclear registrou receita líquida de R$ 4,7 bilhões e lucro líquido de R$ 545 milhões. Após o anúncio da compra, as ações da Eletrobras registraram alta no Ibovespa. As ações da Eletrobras fecharam em alta de 2,33% cotadas a R$ 53,05.

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