Empresa ligada a filho de subsecretária recebeu R$ 11,4 milhões da Educação do RJ; obras são investigadas

O empresário Guilherme Rangel Abreu é filho da subsecretária estadual de Educação, Joilza Rangel. As obras da Secretaria Estadual de Educação são investigadas.


Por André Coelho Costa e Gabriel Barreira | RJ2

As obras milionárias da Secretaria Estadual de Educação, investigadas pelo Ministério Público do Rio (MPRJ) e pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE), envolvem uma empresa que já teve como representante legal o filho de uma subsecretária da pasta.

Guilherme Rangel Abreu e Joilza Rangel — Foto: Reprodução/TV Globo

O empresário Guilherme Rangel Abreu é filho da subsecretária estadual de Educação, Joilza Rangel.

Documentos mostram que ele assinou como representante legal da Atec em contrato para fornecimento de cestas básicas à Prefeitura de Niterói. A mesma empresa recebeu ao menos R$ 11,4 milhões da Secretaria Estadual de Educação para realizar obras em escolas — parte delas sem licitação.

Guilherme Bocão, como é conhecido, foi nomeado no gabinete do presidente afastado da Alerj, Rodrigo Bacellar, entre 2022 e fevereiro do ano passado. Bacellar, do União Brasil, é apontado como responsável pela indicação da então secretária de Educação, Roberta Barreto.

Nos últimos meses, o RJ2 ouviu servidores e ex-servidores da secretaria que, com medo de retaliação, preferiram não se identificar. Eles relataram a suposta influência de Guilherme Bocão na pasta, apesar de ele não ocupar cargo no Executivo.

Outro nome citado é o de Yurie Lopes Fonseca Ormonde André, genro da secretária de Educação. Segundo ex-colegas, ele também teria influência na secretaria, mesmo sem nomeação oficial.

A Atec funciona no Barreto, em Niterói, e atua em diferentes áreas, de fotocópias à construção civil.

O proprietário, Alberes Batista Junior, nega que Guilherme Bocão seja sócio oculto ou representante da empresa, apesar de documento oficial da Prefeitura de Niterói indicar a assinatura de Guilherme como representante legal.

“A empresa é de construção civil. Eu não atendo ninguém no meu escritório. O que eu vou fazer com engenheiro e com pedreiro dentro do escritório?”, afirmou.

“Minha empresa é a 20 anos minha. Não tenho representante, não tenho nada. Sou eu que executo as obras, sou eu que faço tudo na empresa. Os contratos da minha empresa quem assina sou eu. Não tem ninguém que assina nao", acrescentou.

Suspeita de superfaturamento

As obras realizadas nas escolas estaduais são alvo de investigação do TCE e do Ministério Público, sob suspeita de superfaturamento.

Denúncias apresentadas pelo deputado Flávio Serafini (Psol) apontam que pedidos de pequenos reparos teriam sido transformados em grandes obras milionárias pela secretaria. Os pagamentos foram feitos por meio do sistema descentralizado da Seeduc, que recebeu R$ 1 bilhão nos últimos 2 anos.

A Atec foi contratada para obras no Colégio Estadual José Rascão, em São Pedro da Aldeia, na Região dos Lagos. A Coordenadoria de Engenharia da secretaria solicitou reforma integral do telhado, embora a escola não tivesse feito esse pedido. O serviço custou mais de R$ 1,5 milhão.

Relatório de vistoria apontou que parte dos serviços não foi executada conforme o esperado. O dono da empresa afirmou que a relação com o filho da subsecretária não interferiu nas contratações.

O que dizem os envolvidos

Na tarde de segunda-feira (23), o RJ2 pediu respostas à Secretaria Estadual de Educação. Nesta terça-feira (24), foi publicada no Diário Oficial a exoneração da secretária Roberta Barreto.

Ela afirmou que deixou o cargo para se dedicar ao processo eleitoral, dois meses antes do prazo exigido pela legislação. No lugar, assume Luciana Martins Calaça, que presidia a Fundação Leão XIII.

Sobre a ligação do filho da subsecretária com uma das empresas contratadas, a Secretaria Estadual de Educação informou que decisões administrativas são tomadas apenas por agentes públicos formalmente designados.

Disse ainda que, no sistema de pagamento descentralizado, as propostas são apresentadas diretamente às unidades escolares e que as empresas precisam cumprir todas as exigências legais.

A pasta afirmou que a Atec foi notificada pelos problemas encontrados na obra em São Pedro da Aldeia.

A reportagem procurou Guilherme Rangel e Rodrigo Bacellar, mas não obteve resposta até a última atualização.

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