Tudo isso acontece nas barbas da elite legislativa da cidade. Quem vive, trabalha ou simplesmente circula pela Cinelândia merece imediatamente uma medalha Pedro Ernesto, a maior honraria da Câmara Municipal
Por Thiago Gomide | O Globo — Rio de Janeiro
O repórter fotográfico Domingos Peixoto, do GLOBO, registrou em imagens uma sequência de assaltos ocorridos em curto espaço de tempo na Cinelândia. A reportagem teve grande destaque no jornal. Foram mapeados o local, o modo de agir, a recorrência. E então? Alguém fez alguma coisa? Nada.
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| A Cinelândia vista da sacada do Palácio Pedro Ernesto. À esquerda, o Theatro Municipal; e em frente a Biblioteca Nacional — Foto: Custódio Coimbra |
É evidente que a habilidade de um dos profissionais mais premiados do país facilita a captação das cenas. Mas não é preciso muito esforço para perceber o óbvio: a Cinelândia está abandonada à própria sorte.
No dia 2 de fevereiro, durante a dispersão do bloco Marimbondo, houve arrastão. A repórter Fernanda Pontes, da equipe do blog do Ancelmo, publicou nota sobre o episódio. Nas redes sociais, foliões relataram a angústia de ver um momento de celebração se transformar em caos. E esse bloco não está sozinho no carnaval da insegurança. Em outros, também na região do Centro, multiplicam-se denúncias de violência. Alguém faz alguma coisa? Nada.
Vamos ser diretos. Parece básico, mas um dos pilares da atração turística é a segurança — ou, ao menos, um mínimo dela. Não creio que alguém escolha o Rio imaginando encontrar o Éden. Mas também ninguém vem para a maior festa do mundo esperando perder carteira, celular e cordão enquanto o poder público posa para fotos. “Ah, mas isso pode acontecer”, dizem alguns. Volte ao começo da coluna.
Não custa repetir
A Cinelândia é um retrato claro de como a história dá voltas e de como o descuido cobra caro. Ali já existiu um convento tão importante que abrigou o sepultamento da rainha Dona Maria I. No início do século XX, ele foi demolido para dar lugar ao projeto que conhecemos hoje.Sonho de um ex-comerciante espanhol, a Cinelândia nasceu para ser a cidade do cinema. Salas elegantes se espalhavam ao redor da praça — o Odeon ainda resiste, dando um gosto do que foi esse tempo. Senadores frequentavam o Palácio Monroe, que também já foi ao chão. O Supremo Tribunal Federal funcionava ali, onde hoje temos um belo museu.
Já que falei do STF
As homenagens públicas no Brasil nem sempre são fáceis de entender. A estátua de Floriano Peixoto, segundo presidente da República, é um exemplo cristalino dessas contradições. Floriano ficou marcado por confrontos institucionais e chegou a defender o fechamento do Supremo Tribunal Federal. A antiga sede do tribunal ficava onde? Em frente ao monumento.Inaugurado em 1910, o conjunto escultórico reúne figuras simbólicas: indígenas, religiosos, africanos e portugueses, além de datas que evocam a chegada dos colonizadores, a Independência, a Abolição e a Proclamação da República.
No centro, Floriano surge imponente, espada em punho. Ao redor, personagens elevados ao panteão republicano — Tiradentes, José Bonifácio e Benjamin Constant. Entre eles, uma figura feminina etérea representa a Pátria. Um monumento que, mais do que celebrar, expõe as tensões e paradoxos da memória republicana brasileira.
Resistência cultural
No meio desse cenário, há quem resista. A Banca do André é um desses pontos de sustentação. Responsáveis por inúmeros eventos culturais, André e Matheus lutam como podem para manter a praça viva. Recentemente, instalaram câmeras na tentativa de inibir a ação de bandidos. Não inibiu. Sem eles, a Cinelândia estaria ainda pior.Mas ainda tem o poder…
Tudo isso acontece nas barbas da elite legislativa da cidade. Quem vive, trabalha ou simplesmente circula pela Cinelândia merece imediatamente uma medalha Pedro Ernesto, a maior honraria da Câmara Municipal.
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