Denúncia de Glauber foi essencial para ação contra assessora de Lira, diz Dino

Deputado do PSOL quase perdeu mandato e versão no Congresso aponta para perseguição do ex-presidente da Casa. Despacho do STF mostra importância do depoimento


Por Henrique Rodrigues | Revista Fórum

A deflagração por parte da Polícia Federal da Operação Transparência, desde as primeiras horas da manhã desta sexta-feira (12), teve como alvo central uma mulher que é um verdadeiro arquivo vivo dos esquemas de distribuição de bilhões de reais em emendas parlamentares pagas sem o menor controle: Mariângela Fialek, apelidada de Tuca, servidora de absoluta confiança do deputado Arthur Lira (PP-AL), ex-presidente da Câmara.

Deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ) | Mario Agra / Câmara dos Deputados

Agora, com a suspensão do sigilo judicial da decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, relator dos casos envolvendo desvios e outras mutretas com dinheiro do orçamento participativo, e que também autorizou a operação da PF contra a ex-assessora de Lira, vem à tona o peso fundamental que teve o depoimento do deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) ao denunciar o alagoano todo-poderoso.

A versão corrente nos corredores do Congresso Nacional é de que o farsesco processo de cassação movido contra Glauber, do qual ele conseguiu se safar com muito sacrifício, recebendo ao final apenas uma suspensão de mandato por seis meses, teria sido patrocinado e imposto desde o início por Lira, que estaria furioso com as denúncias do parlamentar do PSOL.

Aliás, no despacho de Dino, fica muito claro, nas palavras do próprio ministro do Supremo, como Lira e sua auxiliar foram parar sob a lupa da PF, tudo graças à coragem de Glauber.

[...]Além disso, é importante ressaltar o depoimento do Deputado Glauber Braga que aponta para a existência de um redirecionamento forçado das emendas, determinado pelo então Presidente da Câmara dos Deputados, Deputado Arthur Lira, cujo principal beneficiário era o Estado de Alagoas, inclusive com grande volume de verba pública originada de emendas parlamentares para o município de Rio Largo, cuja população aproximada é de 70 mil habitantes, por meio de emendas da Comissão de Turismo, cujo colegiado não possui deputados alagoanos, senão vejamos:

“Rio Largo, município de Alagoas, aproximadamente 70 mil habitantes. De 2019 a 2022, recebeu aproximadamente 90 milhões de reais do chamado orçamento secreto. Desses 90 milhões de reais, com identificação se eu não me engano, 19 milhões que teriam sido indicados pelo ex-Presidente da Câmara, Arthur Lira, e o restante desses valores, apesar da não identificação, todas as circunstâncias demonstram virem do ex-Presidente da Câmara também, apesar de secreto, que circunstâncias são essas? O ex-Prefeito da cidade é um aliado de longa data e não exita em exibir publicamente a parceria que tem com Arthur Lira na indicação de verbas federais para o município. Dito isso, esse ex-Prefeito chamado Gilberto Gonçalves foi preso quatro vezes [...] mas duas dessas prisões chamam atenção. Uma delas quando ele ainda era da Assembleia Legislativa de Alagoas, junto com o ex-Presidente da Câmara, e ele foi pego numa operação onde no áudio ele fala: “É dinheiro de corrupção mesmo! É pagamento do meu dinheiro! E não quero que cobrem INSS disso”. Naquela operação, inclusive ele foi afastado do cargo de deputado estadual. Bom esse cidadão depois se elege prefeito dessa cidade chamada Rio Largo. Chama a atenção a última vez que ele foi afastado da prefeitura. Aí já com uma incidência direta do orçamento secreto. Lá no município de Rio Largo, o Fantástico inclusive fez matéria sobre isso. Mostra duas empresas de fachada. Fazem saque de dinheiro na boca do caixa. Entregam esse dinheiro para a representante do prefeito num beco e esse dinheiro então é levado até o prefeito. Isso causou o afastamento do prefeito de Rio Largo nessa ocasião com manifestações públicas do ex-Presidente da Câmara que apoiou a filha desse ex-prefeito. Esse ex-prefeito elege também seu sucessor nesse município de Rio Largo. Aí onde estão os elementos novos? Né, que eu imagino que não tenha frisado no meu último depoimento! O ex-Prefeito ao final do exercício da Presidência da Câmara por Arthur Lira faz uma carta que é praticamente uma declaração de amor ao Lira do último período que ele passou na Presidência da Câmara dos Deputados, mas combinado com isso, na decisão que veio do Ministro Flávio Dino suspendendo o pagamento de uma lista sem transparência, a gente teve ali o Estado mais beneficiado por aquela listagem o Estado de Alagoas e o município de Alagoas mais beneficiado, o Município de Rio Largo. No último depoimento, inclusive, o Senhor frisou que estava vendo que, se não me engano, era da Comissão de Turismo. E aí a gente foi fazer pesquisa na Comissão de Turismo para fazer uma verificação sobre quantos parlamentares de Alagoas tinham apresentado requerimento ou sido relatores na Comissão de Turismo e nenhum parlamentar tinha nem apresentado requerimento nem sido relator na Comissão de Turismo. Requerimentos formais. Mas aí a gente foi além na pesquisa para verificar no momento da instalação da Comissão quantos parlamentares de Alagoas tinha na Comissão de Turismo. Não tinha nenhum parlamentar de Alagoas. Então há uma demonstração cabal de que aquilo de algum jeito foi plantado na Comissão e eu acho que esse é um elemento importante, porque o que se operou na Comissão do Deputado José Rocha, que é também testemunha quando houve influência direta para que recursos para outros estados fossem ali colocados evidentemente na minha interpretação aconteceu a mesma coisa na Comissão de Turismo. O Presidente da Comissão de Turismo é uma figura que eu não conhecia, mas ele é do Paraná. O que é que justifica um Presidente de Comissão do Paraná com deputados que não são de Alagoas a indicação para recursos para um município de Alagoas que já tinha uma quantidade tão grande de denúncias sobre corrupção relacionadas à aplicação do orçamento público das próprias emendas daquilo que ficou configurado como orçamento secreto, a não ser uma interferência do ex-Presidente da Câmara para tal?”.


Conhecida pelo apelido Tuca, Mariângela era assessora de Arthur Lira (PP-AL) enquanto ele ocupava o cargo de presidente da Câmara dos Deputados, tendo sido depois, com a eleição de Hugo Motta (Republicanos-PB) para a função, deslocada para a assessoria da liderança do PP na Casa. Chamada nos corredores do Congresso de “HD do Orçamento Secreto”, ela já ocupou uma infinidade de cargos entre os figurões do núcleo duro do poder de Brasília, como subchefe de Assuntos Parlamentares da Secretaria de Governo da Presidência da República, nomeada pelo presidente golpista Michel Temer (MDB), chefe da Assessoria Especial de Relações Institucionais do Ministério do Desenvolvimento Regional do governo Jair Bolsonaro (PL) e assessora do então senador Romero Jucá (MDB-RR), além de ter sido integrante dos conselhos do BNDES Participações S/A., da Codevasf, do Conselho Nacional da Amazônia Legal e do Conselho do Programa Nacional de Incentivo ao Voluntariado.

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